O Paraguai enfrenta uma crise que já ultrapassou o sistema financeiro e chegou ao comando do país.
O Paraguai atravessa uma das maiores crises políticas e financeiras dos últimos anos após o colapso do Ueno Bank. O presidente Santiago Peña apresentou sua renúncia, mas o pedido ficou pendente no Congresso enquanto o Senado prosseguiu com o processo de impeachment. A quebra do banco deixou milhões de clientes com dificuldades para acessar recursos e colocou sob investigação os vínculos anteriores de Peña com o grupo controlador da instituição. O episódio também ameaça a imagem de estabilidade econômica que o Paraguai vinha utilizando para atrair investimentos estrangeiros. O Brasil aparece entre os principais investidores diretos no país.
O colapso do Ueno Bank transformou uma crise bancária em uma grave crise política no Paraguai e colocou o presidente Santiago Peña diante de um processo de impeachment no Senado.
Peña chegou a apresentar formalmente sua renúncia à Presidência. A saída, porém, não produziu efeito imediato porque o Congresso não concluiu sua análise. Sem a aceitação da renúncia, ele continuava juridicamente no exercício do cargo enquanto o julgamento político avançava.
O presidente também solicitou uma prorrogação de 72 horas para preparar sua defesa. Segundo o pedido encaminhado ao Congresso, o período oferecido inicialmente seria insuficiente para que seus advogados analisassem centenas de páginas de documentos e provas anexadas à acusação.
A crise começou depois que o Banco Central do Paraguai determinou a resolução e o fechamento do Ueno Bank ao identificar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo legal exigido. Os serviços digitais, cartões e demais operações foram interrompidos, deixando clientes temporariamente sem acesso às contas.
O banco afirmava possuir cerca de 3 milhões de clientes e administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores ligados ao sistema público de Previdência e saúde. O congelamento desses recursos aumentou a dimensão econômica e social da crise.
As acusações contra Peña estão relacionadas principalmente a um possível conflito de interesses. O presidente foi acionista do Grupo Vázquez, controlador ligado ao Ueno, até março de 2025. Peña afirma ter vendido sua participação e nega qualquer irregularidade ou investimento direto no banco.
Parlamentares que defendem o impeachment acusam o governo de falhas na fiscalização da instituição, uso inadequado de recursos públicos e possível favorecimento ao grupo empresarial. A Promotoria paraguaia também abriu uma investigação criminal específica contra Peña relacionada ao caso.
A atuação do Banco Central também passou a ser questionada. Carlos Carvallo, que comandava a autoridade monetária e anteriormente havia dirigido o Ueno, deixou o cargo depois da intervenção na instituição. O caso aumentou as críticas sobre possíveis conflitos entre o sistema financeiro, grupos empresariais e autoridades públicas.
Além das consequências políticas, a crise afeta uma das principais bandeiras econômicas utilizadas pelo Paraguai nos últimos anos: a estabilidade e a segurança para investidores estrangeiros.
Dados do próprio Banco Central paraguaio mostram que o Brasil está entre os países com maior volume de investimento direto no Paraguai. Ao fim de 2025, o estoque de investimento direto estrangeiro no país alcançava US$ 14,7 bilhões, com o Brasil aparecendo na liderança entre os principais países investidores.
Empresas brasileiras vêm ampliando operações em setores como indústria, agronegócio, infraestrutura, imóveis, tecnologia e energia. O governo paraguaio vinha promovendo ativamente benefícios como custos competitivos, regimes de maquila e facilidade para instalação de empresas como diferenciais para atrair capital brasileiro.
A crise do Ueno, portanto, ultrapassa a situação dos correntistas e o futuro político de Santiago Peña. O caso coloca em debate a capacidade de fiscalização das instituições paraguaias e pode afetar a percepção de segurança jurídica e estabilidade financeira justamente em um momento em que o país vinha registrando forte crescimento na atração de investimentos internacionais. A própria repercussão internacional já destacou o impacto do episódio sobre a confiança no sistema financeiro do país.
Enquanto o processo político avança, o Banco Central começou a organizar a devolução de recursos aos clientes. O sistema de garantia deve cobrir integralmente os saldos de aproximadamente 97% dos depositantes, segundo as autoridades, embora clientes e instituições com valores maiores ainda enfrentem incertezas.





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